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Artigos: Lidando com as diferenças

Em todos os nossos relacionamentos, experimentamos diferenças de opinião ou de pontos de vista. Já discordei de meus pais, minha esposa, meus filhos, colegas e superiores no trabalho, vizinhos e de amigos da igreja também. Mas quando entrei na igreja, decidi que queria estar unido com as pessoas do grupo - somos membros de um mesmo corpo (1Coríntios 12) e é desejável que cada um tenha o mesmo pensar, amor, espírito e atitude diante de Deus (1 Coríntios 1:10 e Filipenses 2:2).

Tenho que admitir que nem sempre isso é fácil. É talvez por isso mesmo que o apóstolo colocou esta direção para trilharmos. Somos todos diferentes e muitas vezes temos idéias, pensamentos ou interesses divergentes. Lendo o livro de Ester, percebi que houve muitos conflitos entre os personagens. Acredito que podemos aprender algumas lições a respeito de nossas relações ao lermos esta história.

O livro começa com um conflito. A rainha Vasti não quer se apresentar diante do rei e seus convidados (Ester 1:8-13). O livro não deixa muito claro as motivações dela - pode ser que ela estivesse ocupada com um banquete para as mulheres, ou por ela achar humilhante ter de mostrar sua beleza diante de outras pessoas (dançando talvez) ou por estar com dor de cabeça ou talvez por alguma vingança pessoal. De qualquer modo, a resposta dela veio de forma enfática - "Não!". A fúria do rei veio imediatamente, mas ele ainda buscou conselhos com seus sábios. Às vezes, nossas respostas bruscas e sem tentativa de diálogo deixam a outra pessoa numa situação constrangedora ou irritante. Será que não teria sido melhor explicar a situação, pedir um tempo para se aproximar ou pedir desculpas humildemente? Ela acabou pagando caro, pois perdeu a posição de rainha e todas as mulheres da época sofreram em conseqüência disso (1:19-22).

Dois capítulos depois, vemos outro homem recusar com teimosia algo que lhe foi colocado (3:1-6). Hamã era o homem mais importante depois do Rei Xerxes e todos se curvavam e prostravam diante dele, mas um homem chamado Mardoqueu não fazia o mesmo. Isso deixava Hamã furioso também, tanto que queria matar Mardoqueu e todos os judeus. Mardoqueu explicou que era por ser judeu (não sei se consideravam o ato de se prostrar como adoração e, portanto, pecado) – era uma convicção dele e não algo pessoal contra Hamã. Porém, Hamã levou isso de modo pessoal e exagerou na dose, querendo se vingar de todo o povo judeu. Depois de ter decretado o extermínio dos judeus e o saque de seus bens (3:13), Mardoqueu se prostrou diante de Deus, rasgando suas vestes e chorando em voz alta (4:1). O primeiro passo dele foi buscar a Deus! É uma atitude espiritual correr para Deus quando a situação não é do jeito que desejamos ou se ela é realmente desastrosa. Só Deus é capaz de realizar determinadas ações (Mateus 19:26; Marcos 9:23; 14:36; Lucas 18:27)! Por favor, irmãos, antes de mais nada, chore com o Todo Poderoso. Isso aumenta a nossa segurança, pois Ele é capaz e ainda sabe o que é melhor para nós (Mateus 6:5-15, 25-34; Hebreus 12:3-11).

Voltando a nossa história, Mardoqueu buscou a Deus, mas não se omitiu dizendo: "Deus pode fazer tudo, então vou esperar para ver". Ele tomou iniciativa para falar com quem talvez pudesse fazer alguma coisa nesse sentido. Ele explicou para um oficial próximo de Ester o que estava acontecendo e pediu para ela falar com o rei. Acredito que cada um tem de fazer a sua parte e tentar chegar a uma solução para o problema que enfrenta. Pode ser que Deus use aquela pessoa ou caminho para dar a resposta (também pode ser que não, e devemos ter a maturidade para entender que pode haver respostas que não sejam as quais estamos esperando).

Mardoqueu tinha convicção que Deus era capaz, mesmo que certo homem (ou mulher) não fizesse o que ele mesmo pensava e queria (4:12-14)! De qualquer modo, precisamos trabalhar juntos para ser parte da solução e não ficar parado chorando as mágoas. O trabalho de equipe costuma produzir soluções eficazes. Aliás, no caso de Mardoqueu, ele costumava tomar iniciativa quando via alguma necessidade. Numa situação anterior (2:21-23), vemos que, quando soube de um plano de alguns oficiais para assassinar o rei, ele fez chegar ao conhecimento de Ester e do rei. Ele não pensava no seu próprio risco, não fazia questão de aparecer, mas de contribuir para a paz e bem-estar dos outros.

Graças a Deus, Ester ouviu a Mardoqueu. Aliás, ela costumava seguir os conselhos dele (2:20), mesmo depois de sair de debaixo de sua tutela (e hoje, agora que não temos mais alguém cuidando de nós oficialmente, será que continuamos buscando e seguindo os bons conselhos de quem nos quer bem?). Acontece que Ester estava com medo do que poderia acontecer se ela chegasse diante do rei e o rei não a recebesse, pois havia uma lei dizendo que alguém que chegasse sem ser chamado poderia ser morto - haviam conseqüências sérias! Mas ela também estava constrangida, pois via que estava numa posição privilegiada e o povo que ela amava estava em perigo. Que conflito interior! Talvez pensando no exemplo do próprio Mardoqueu, que poderia ter ficado quieto na época do plano de assassinato, ela decidiu se arriscar em prol do bem-estar geral. Também seguindo o exemplo de Mardoqueu, ela pediu a ajuda de Deus e solicitou que todo o povo jejuasse e orasse por ela (4:15-17). Depois da oração, ela tomou coragem e foi se apresentar ao rei. Graças a Deus (literalmente), o rei a recebeu (5:1-4)! Ela poderia ter desabafado tudo naquela hora: "Meu rei, o senhor não sabe o que está acontecendo, meu povo vai ser morto! Preciso que você faça alguma coisa! É tudo culpa sua! Estou desesperada! Faça algo já! Se não fizer, vai acontecer aquilo!" Mas ela teve outra atitude e com toda a coragem, pediu para fazer um banquete para ele e o homem que iniciou a idéia de matar o povo (Hamã). Ela estava preparando o terreno, ajudando a construir um clima em que seu pedido seria mais aceito. Quanta paciência! Quanta sabedoria! Será que nós não teríamos mais sucesso, se seguíssemos o exemplo dela? Será que tudo tem de ser descarregado nas pessoas envolvidas na hora da oportunidade? Será que nossas emoções não podem ser controladas e dirigidas a uma solução mais pacífica e positiva? Será que não dá para tratarmos bem a todos, mesmos os que consideramos culpados? Será que não dá para criar situações agradáveis para discutirmos questões difíceis? Gosto muito da atitude de Ester, pois ela disse que ela nem teria levantado o assunto se não fosse uma questão de vida ou morte (7:3-4). Ela não iria perturbar o marido dela por qualquer coisa, mesmo se fosse tão sério quanto a escravidão! Ela pensava nos sentimentos, atividades, responsabilidades, situações dele também, não só nos dela. Ela preferia o silêncio a perturbar o outro! Você é o tipo que tem que falar o que pensa, custe o que custar, ou você pára para pensar no que o outro vai sentir? Você tem a maturidade para lidar com as coisas na paz ou precisa ser “agora e do seu jeito”? Acredito que agradaríamos mais a Deus (e às pessoas), se considerássemos mais os outros antes de expressar todos os nossos sentimentos e pensamentos, ou se no mínimo, colocássemos nossas idéias como possibilidades e não como a única saída justa.

No caso de Ester, Mardoqueu e do povo judeu, a agressão foi em última instância. Foi para se proteger e não para se enriquecer. No decreto que o rei emitiu, depois do pedido de Ester, foi permitido que o povo judeu se defendesse diante das ameaças de extermínio, mas também foi dada a oportunidade de saquear os bens dos que os ameaçassem (8:11). Talvez o sentimento dos judeus fosse então: “Agora eles vão ver o que é bom para tosse! Agora vão receber o troco e vou sair ganhando!”. Mas esta não foi a atitude deles. Eles poderiam ter tomado os bens, mas não o fizeram (9:9, 15 e 16). Eles se protegeram e até mataram as pessoas que tentavam aniquilá-los, mas não se apossaram dos bens. Não pensavam em como se aproveitar pessoalmente da situação; queriam paz e liberdade apenas. Deus lhes deu o que desejavam e eles festejaram a vitória com muita gratidão (9:17-18) e em conjunto. Como gosto de festejar junto com os outros as bênçãos que Deus nos dá. Como Ele também deve ficar feliz quando vê todo mundo trabalhando junto para a glória divina.

A última frase do livro de Ester parece ser a moral da história: "O judeu Mardoqueu foi o segundo na hierarquia, depois do rei Xerxes. Era homem importante entre os judeus e foi muito amado por eles, pois trabalhou para o bem do seu povo e promoveu o bem-estar de todos" (10:3). Mardoqueu foi amado e se tornou importante porque trabalhava para o bem dos outros. Ele promovia o bem-estar de todos e não só de si mesmo. É um herói mesmo. Você acredita que Deus abençoa pessoas assim? Você não gostaria de ser assim? Acredito que veremos isto em nosso meio - nossos casamentos, famílias, conselhos, trabalhos e igrejas, se perseverarmos na vontade de Deus em qualquer situação. Aliás, no primeiro sermão de Jesus, ele ensinava: "Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus" (Mateus 5:9). Vamos trabalhar para a paz em tudo que estamos fazendo. Deus vai ficar mais feliz, pois será com o poder dele e não com nossas próprias forças.

Por James Shults

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