Artigos: Como anda sua consciência

A consciência é mencionada umas 25 vezes no Novo Testamento, fora os casos em que é apenas exemplificada (por exemplo: Judas — Mateus 27:1-5 e Herodes — Marcos 6:14-29). Às vezes a consciência se refere a uma acusação interior (ou não) por termos feito algo (errado ou não, no passado). Outras vezes se refere a uma situação que causa uma reflexão sobre se uma decisão (futura) é a certa ou a errada. Assim, a consciência pode ser algo como o nosso tribunal interno ou um guia para nos acompanhar no dia a dia.

O apóstolo Paulo contava muito com sua consciência, pois, muitas vezes em discursos e cartas, ele expressava que não agredira sua própria consciência (Atos 23:1; 24:16; Romanos 9:1-3; 1Coríntios 4:4; 2Coríntios 1:12-14; 4:2; 1Timóteo 1:13; 2Timóteo 1:3). A consciência é, de fato, uma grande ajuda para quem se sensibiliza com ela. Recentemente, um amigo meu estava compartilhando comigo como ele é grato por ter uma consciência afiada, pois isso o tem poupado de muito sofrimento e pecados graves. Em uma vez que se sentiu tentado em casa, ele alertou e pediu ajuda da esposa para que não acontecesse aquela situação novamente e evitasse o pecado. Alguns de nós brincamos com a consciência, sabendo que algo é errado ou questionável, mas mesmo assim, avançamos para a cobiça, ganância ou egoísmo. Num certo dia, entrei na sala e vi minha filha com as mãos atrás das costas. Por que ela faria isso, se não estivesse acusada por alguma razão? De fato, estava brincando com o fio dental e desperdiçando-o — com certeza, algo que não devia estar fazendo. Se ela tivesse ouvido a consciência antes, teria se poupado de uma bronca minha, não é mesmo?!

Por que a consciência de alguns os acusa muito e a de outros, nem tanto? Em Romanos 14 e 15 e 1Coríntios 8, Paulo diz que alguns têm uma consciência fraca e por isso são acusados por situações que, para uma pessoa esclarecida, nem é pecado. Percebemos que a consciência precisa ser ensinada ou treinada pela Palavra de Deus. Sem isso, podemos julgar como pecado algo que não é, ou sermos levianos com algo muito sério. Também é possível fazer o correto, mas com os motivos errados ou incompletos. Aliás, em Romanos 13:1-7, Paulo discute a submissão do discípulo diante das autoridades civis e diz que devemos obedecer a tais autoridades não só pelo medo de ser punido, mas por uma questão de consciência. Foi Deus quem instituiu a autoridade para haver justiça na sociedade, então somos fiéis aos governos (inclusive pagando impostos) por termos a convicção do divino, não por obrigação ou medo. O termo "consciência" é composto de duas palavras: "com" e "ciência", ou conhecimento junto com outro. Esse outro supostamente seria Deus, o criador e padrão moral para o homem. O homem que é muito ligado a Deus e sua palavra deveria ter a consciência mais equilibrada.

A consciência não é regida por uma lista fixa de regras. Há questões mais importantes do que o que é permitido fazer ou não. Nos casos acima, Paulo diz que, mesmo sendo permitido, é melhor não fazer algo que fere a consciência de um outro irmão. A união se torna a prioridade sobre a liberdade individual (Romanos 15:1). Eu posso aprovar algo como certo e mesmo assim me condenar, pois posso não estar me importando com o sentimento de outro irmão em relação a isso - o relacionamento é mais importante do que ter a razão. Estar bem com Deus e os irmãos nos faz felizes (Romanos 14:22). Minha consciência precisa ser regida por algo além do que o que eu penso ou sinto; a coletividade também interessa (1Coríntios 8:1-13). É interessante observar que Paulo, embora tenha procurado matar cristãos antes de se converter, não havia ferido sua própria consciência. Ele fez tudo aquilo por ignorância e ainda com zelo. Por isso, Deus teve misericórdia dele para que ele conhecesse a verdade (1Timóteo 1:12-17). Depois de explicar isso, Paulo afirma a Timóteo que o caminho de ser um bom soldado espiritual é manter a fé e a boa consciência (1:18-20). Sem isso naufragamos espiritualmente. Nós, os mais antigos na fé, devemos refletir nisso, pois "manter" é algo que se faz no decorrer do tempo. É fácil, com o passar dos anos, amolecer nos padrões e na abertura do coração. Agradar a Deus não é cumprir regras e tradições, mas preservar nosso coração para ele. Aliás, no início do capítulo, Paulo comenta como alguns, por quererem ser mestres (estes deveriam ter algum tempo na fé), se desviaram do que era importante: o amor que vem de um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera (1:3-7). O amor verdadeiro tem motivações claras (não interesseiras ou de segundas intenções), é um exemplo de leveza (confiante em vez de hipócrita, faz o que fala e não tem o que esconder) e é uma visão positiva e fiel (não fingida). Não podemos esquecer que Deus nos chamou para amar desde o início até o fim. É imperativo que todos tenham uma boa consciência, mas especialmente os líderes espirituais. Na lista de qualificações para ser diácono consta "apegar-se ao mistério da fé com a consciência limpa" (1Timóteo 3:8-10). Para mim, isso indica uma entrega sincera e entusiasmada a Deus e a seu povo. Cuidar da consciência nos ajuda a crescer em nossa utilidade ao Rei Eterno. Um título de liderança, um aumento de atividades espirituais ou rotinas cômodas adquiridas com o tempo não podem ser desculpas para desviarmos do nosso relacionamento com Deus.

Alguns trechos fazem questão de comparar a velha lei e a nova aliança na questão da consciência. O autor da epístola aos Hebreus diz que a lei anterior não era completa pois os sacrifícios tinham de ser repetidos regularmente e o sumo sacerdote tinha de oferecer sacrifícios para ele mesmo. Para o autor, isso indicava que as pessoas não conseguiam limpar as suas consciências — era apenas uma purificação exterior ou cerimonial. Agora que Jesus se ofereceu sem mancha, ele nos purifica por dentro, completamente, e de uma vez por todas (Hebreus 9:1-10; 10:1-4). Continuando, ele enfatiza que nossa confiança vem da morte de Jesus. Por causa disso, podemos nos aproximar de Deus com um coração sincero, convicção plena, consciência purificada e o corpo lavado. Foi através das águas do batismo que Deus nos lavou e nos livrou das culpas (não por coincidência, a boa consciência está intimamente ligada ao batismo — o que não é uma lavagem física, mas a participação no enterro e ressurreição de Jesus, segundo 1Pedro 3:21-22). É impossível ter a consciência limpa sem olhar para Cristo. Por outro lado, por causa da graça dele, podemos trabalhar e nos unir um ao outro com ânimo e esperança (Hebreus 10:19-25)!

Falando da salvação, acho importante acrescentar que muitos acham que os indivíduos que não ouviram o evangelho serão salvos se a própria consciência não os acusar. De fato, Paulo fala que a consciência acusa ou defende cada pessoa e que mesmo pessoas que não leram a lei tem princípios parecidos com ela (Romanos 2:12-16). Mas qual é a pessoa que nunca feriu a consciência (mesmo nunca tendo lido a Bíblia)? Há momentos em que obedecemos fielmente a nossa consciência, porém há outros em que teimamos em fazer o mal. Se a pessoa já feriu a consciência ou quebrou a lei, qual é a esperança dela? Só por meio do sacrifício de Jesus. Deus não levava em conta a ignorância antes, mas agora que Jesus ressuscitou ordena que todos se arrependam (Atos 17:30-31). Por isso, nós, os discípulos, precisamos anunciar a Cristo com todo fervor e fé, pois como vão ser salvos se não sabem invocar o nome dele (Romanos 10:12-15)? A consciência ajuda a ver os erros e a moralidade, mas não é a base da salvação.

As escrituras mostram que a consciência treinada por Deus nos motiva a fazer coisas que poucos entendem. O apóstolo Pedro comenta que é louvável diante de Deus para o escravo se sujeitar ao seu dono (mesmo um dono ruim) com respeito, e isso por questão de consciência diante de Deus e não só para evitar o sofrimento nas mãos do dono (1Pedro 2:18-25). Isso pode não fazer muito sentido para nossa sociedade que está preocupada com os direitos individuais, mas Cristo entregou todos os seus direitos na mão de Deus. Nós o imitamos, ou melhor, nos convertemos a ele (v. 25), então nosso padrão é outro. No capítulo seguinte, o autor acrescenta que devemos fazer o bem, mesmo que tenhamos de sofrer por isso. Cristo é o Senhor de nosso coração e é por isso que temos esperança, porém devemos explicar essa nossa motivação com respeito ao outro, "conservando boa consciência". Quando agimos com respeito, mesmo diante da injustiça, poderão sentir vergonha por agirem de maneira contrária (1Pedro 3:13-18). Nossa consciência focaliza a vontade de Deus, mesmo se ninguém está olhando. Estamos entrando na época das férias e festas de fim de ano. Muitos viajam e saem de suas rotinas. Não se esqueçam que nossas atitudes, pensamentos, palavras e ações são diante de Deus e não dependem de nossa proximidade das atividades ou amigos cristãos. Nossa consciência está colocada diante de Deus, que é onipresente e nos abençoa em todos os lugares e situações.

Terminando, observe o que Paulo diz em 2Coríntios 1:12-14. O autor da carta está expressando a confiança que ele tem na maneira como havia se comportado entre os coríntios. Ele transmite três princípios interessantes para avaliar a consciência: santidade, sinceridade e clareza. Santidade se refere à pureza moral ou à conduta. Sinceridade tem a ver com a simplicidade das intenções ou motivos. A clareza indica que o que Paulo pregava ou escrevia nas cartas era compreensível (na teoria) e também correspondia com o que ele fazia durante o tempo em que estava com eles (na prática). Toda a vida dele era reflexo de seu relacionamento com Deus. Ele se guiava pelo espiritual e não pelo que era aceitável em termos humanos ou mundanos. Acredito que Paulo entendia bem os princípios de avaliação de nossa consciência e conduta. A sua consciência está bem orientada? Ela é firme? Ela tem lhe ajudado a evitar o mal? Que cada um de nós aumentemos nosso conhecimento do Deus Criador e nos preocupemos com o que lhe agrada. Que esse conhecimento reflita fielmente as nossas motivações e ações todos os dias de nossa vida.

Por James Shults

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